A.
Eu nem me lembro mais como foi a última vez em que eu não senti culpa.
Que eu simplesmente peguei minhas coisas e saí sem questionar ou evitar o destino.
Sequer recordo de quando sentei, apenas sorrindo. Sem pensar no custo deste movimento fácil, sem planejar por quanto tempo será necessário não se deliciar novamente, para compensar o que faz agora. Este é um momento de folga que mal consigo imaginar como real, como se isso sempre tivesse feito parte de mim.
E talvez relamente seja assim. Eu não sei de onde surgiu, como ou porque tudo começou. Por vezes, eu imagino que tenha misturado uma pitada de flagelação com doses de busca por autocontrole. Mas esse pensamento parece tão dramático e ridículo que logo trato de colocá-lo na prateleira, entre risos mentais.
E, no fim, isso importa? Não faz tanta diferença se as vontades, as milhares de guloseimas gostosas, nunca são fortes o bastante. O único sentido na existência é levar cada vez mais e ver até onde chega, até onde EU chego.
A vida é esta droga: o máximo que se consegue dela é a morte. Então por que não posso eu mesma controlar tudo? Eu posso levar ao extremo que quiser, posso esconder metade de meus movimentos, posso salvar um dia em que tudo parece estar errado, posso fazer tudo isso acabar, ou posso fazer piorar, eu posso! Sei.
A única coisa que eu não posso, de maneira alguma, é viver sem isso. Amo. Mas também odeio mais que tudo.
Meu inferno pode ser uma grande besteira, mas não consigo me livrar dele.
"... e eu te amo até os ossos". Literalmente.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
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Camila Hidaka
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16:20
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Três.
Era feriado de 7 setembro, uma quinta-feira. Esses são os únicos detalhes que me lembro deste dia, que foi ocultado pelos seguintes, aqueles que são os mais importantes de todos. Precisava devolver alguns filmes nesse dia e, por isso, passei na locadora. Depois de pagar, o menino que me atendeu se despediu com seu já conhecido sorriso terno: “Amanhã nós estaremos abertos”, disse-me.
Agora sei que isso não passou de um aviso a que lhe fora orientado, provavelmente disse a todo cliente que passava por ali. Mas a minha cabecinha esperançosa distorceu tudo, é claro. Por deliciosos instantes, delirei que esta frase significasse que ele gostaria que eu voltasse no dia seguinte. Nem por um momento hesitei.
Não haviam filmes que eu quisesse ver, e é claro que haveria nada de novo de um dia para outro. Mas há tempos o passeio até a locadora era apenas uma desculpa... então fui. No caminho, decidi por pegar o “X-Men 3 – O Confronto Final”, que já tinha assistido, mas como ainda era recém-lançado, deveria ser daqueles com etiqueta de devolução em 24 horas. O que significava que eu teria que voltar para devolver no dia seguinte.
Não tinha nenhum disponível. E a pessoa que queria que me atendesse também não estava. Enrolei um pouco, perguntei pelo filme com a melhor cara de inocência que consegui colocar. O tiozinho que me atendeu, deu uma risadinha estranha e pediu para que eu esperasse, sumindo por aquela porta em que as locadoras costumam esconder os DVDs. De lá, em vez de um DVD do X-Men, surgiu o meu menino.
Reservei o filme. Foi sem querer, mas a chance foi perfeita para passar meu telefone. Ele teria que me ligar, quem sabe até pedisse para guardar o número... Mas só anotou, profissionalmente, e disse que tinha mais 6 pessoas na minha frente, na lista de espera. Fui embora decepcionada, agora com a plena visão de que não tinha nada ali.
Foi só o tempo de chegar em casa e o celular tocou. Puxa, nem me preparei! O que falar? No fim, fui idiota e sem graça. E a ligação só durou o tempo de avisar que o filme estava lá me esperando e eu responder que em breve passaria para buscar.
Tentei conter minha ansiedade de ir correndo, pensando que isso tudo era só uma fantasia adolescente de minha parte e que estava muito claro que ele não queria nada comigo. Mas consegui esse feito por, no máximo, uns 40 minutos. Senti o frio na barriga enquanto caminhava, e depois uma queimação revoltada quando a recepção foi novamente fria e profissional.
Não lembro se vi o filme, no fim. E, no dia seguinte, a empolgação para devolvê-lo tinha se evaporado. Quase pedi para que devolvessem em meu lugar, não queria mais tantas sensações e esperanças irracionais. De fato, tive que insistir para minha mãe que não precisava ir até lá e que eu não queria carona. Não sei o que me fez recusar a carona e a companhia, mas o fiz intensamente.
Minha última visita à locadora foi marcada pela cena. Havia ali uma confusão organizada de clientes no balcão, e meu menino ajeitava alguma coisa na televisão no andar de cima, mas fingi não perceber sua presença. Esperei educadamente que as pessoas fossem embora, para ter a minha vez. Nem percebi quando meu menino de repente já estava lá, bem na minha frente e pronto para me atender antes do resto das pessoas.
Agora eu teria de descrever o diálogo que se seguiu, mas confesso que pouco me lembro dele. Só lembro de tentar manter uma expressão neutra e de ter falado vagamente que gostei do filme, mas que já o tinha assistido no cinema.
- Você vai muito no cinema? – perguntou-me, no meio do meu torpor de educação e disfarce.
- Até que sim. –imaginei o que viria a seguir, com medo de estar criando novas ilusões.
- A gente podia ir um dia.
- É, pode ser. – com a maior falsa indiferença, pois estava quase saltitando.
- Pode ser hoje? – será que ele compartilhava da minha ansiedade?
O que veio depois não importa: o dia arrastado, a minha família inteira na porta bem quando foi me buscar, o não-cavalheirismo na conta, a longa espera, o filme não visto. Só importa o início da melhor parte da minha vida, aquela em que tudo foi corrigido e o mundo se harmonizou. Aquela que me mostrou que tudo estava errado, que eu sempre esperei pelo meu menino de olhar doce e contido.
Isso foi há três anos. Pra mim, em outra vida.
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Camila Hidaka
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08:29
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Let's twist again.
... E um dia você é tomado pela preguiça. Não por aquela preguiça domingueira gostosa, de ficar preso ao sofá e suas músicas preferidas o dia inteiro. Mas uma preguiça de ser. Um apego às ideias fáceis, aquelas que não pedem nenhum tipo de esforço, atrito ou luta. Não é nada de mais, deixa pra lá.
As pessoas são melhores que você, mesmo. O mundo não tem solução. Aquela música é impossível de ser tocada. O maior esforço em juntar palavras bonitas e com conteúdo razoável serve apenas para ninguém ler. Você não canta bem, é feio e um péssimo atleta. A reforma ortográfica faz com que você se sinta um analfabeto. "A vida é uma merda... e depois morremos".
O mundo parece bem mais aceitável, quando tomado por esta preguiça esquisita. Seu emprego continua ali, a música também, os treinos, a faculdade... A rotina é sempre a mesma, mas a sensação é do tempo passando em uma vida que não é mais sua.
Até bate uma saudade de coisa ou outra. Mas já passou e é melhor assim.
O problema é que a gente acaba esquecendo que o resto do universo não compartilha de sua preguiça e fica surpreso quando alguém rompe seu casulo entorpecido. Sua preguiça o deixa levar pelo ritmo interrompido, como se fosse inevitável. Logo, os antigos prazeres mais insignificantes se mostram verdadeiros tesouros e você percebe que estava sendo preguiçoso: aquelas pessoas melhores que você são apenas discursos e produção, a música impossível se dissolve em pedaços separados de exercícios conhecidos, o mundo se mostra disposto a dobrar-se... (até demais)
Não é feliz. Mas é o que você é: bateria, kung fu e palavras mal escritas. Tudo regado ao molho de cebolas, claro.
Esta é minha última tentativa com essa coisa. Com uma dedicação especial pelo impulso estranho.
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Camila Hidaka
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16:34
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
NÃO PRA MIM TAMBÉM.
Ser um incorrigível intolerante é um não.
À primeira poeira mínima fora de seu lugar e o universo desmorona em pedaços odiáveis de coisas mal-feitas.
Não existe mais nada de bom na pessoa responsável por tamanho desgosto, jamais haverá perdão pela sujeira óbvia.
Toda a existência perde seu gracejo, não existem mais agrados no mundo, não existe mais interesse neste assunto estragado.
Não há mais motivação alguma para essa fantasia de estar cercado de amiguinhos e atenção; isto não serve. Não restam ilusões de um mundo sentimental e bonito. Não dá para suportá-lo.
Não existe paciência para ouvir, porque não há importância para as porcarias esperadas que virão; não há o gosto de falar, porque ninguém irá entender e... afinal, quem se importa?
Não sobram forças para as pequenices adoráveis. Alguns momentos poderiam até ser engraçadinhos, mas o riso enfraquece no meio do caminho, se perde. Resta apenas um esgar de decepção cordial.
Não parece possível nenhum tipo de prazer. A música grita, o sono some, os cochilos morrem, os bichinhos fogem, os amigos mentem... a comida machuca.
Não existe prazer em um enorme e melequento bolo de chocolate ou naquele hambúrguer gorduroso e recheado de molhos e cebolas.
Não resta qualquer qualquer situação de pétisco descompromissado, daqueles que são apenas uma desculpa para um bom momento em boa companhia; fica apenas a satisfação única da auto-destruição.
Não há mais muita coisa que pareça ter algum propósito, como se a vida fosse um emaranhado de pensamentos preguiçosos. Não existe razão para finalizar o que foi começado, não servirá para nada. Não restam pensamentos de qualquer espécie, e todos os esforços para criá-los apenas vertem para um branco imbecil, sufocante e conhecido
E, assim, segue o não.
Você não come, não ouve e não fala. Não ri, não confia e não passa sensações. Não quer, não gosta e não percebe. Não sonha, não xinga, não tem mais seu propósito outrora tão salientado.
Não é mais quem realmente é. ´
Não canta,
Não xurde,
E não escreve mais.
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Camila Hidaka
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19:13
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Sem aviso o dia nasce colorido. Mas não um colorido significativo e alegre. Aquele colorido doentio e já sabido, forte e sufocante. A existência inteira parece inexplicavelmente mais intensa, como se o sol estivesse mais amarelo e quente, o piso mais real e tortuoso, a comida mais cheirosa e tentadora, ou a música mais agradável e harmoniosa.
Por mágicos instantes delirantes almejo o paraíso acebolado, onde pequenas chinchilas fofas pululam nos campos de girassol e deliciosos caramelos gigantes brotam do chão regado por suco de framboesa. Os Oompa-Loompas colhem macadâmias e cantarolam serelepes ao lado de meninos-pêssego comedores de kibidangos...
Não. As cores se impõem, exibicionistas e implacáveis. Não foi a momentos gloriosos que elas vieram, não trouxeram inovação ou reviravoltas. A insuportável beleza, o calor irritavelmente aconchegante não são um afago, mas uma severa exprobração.
Com a sensação engraçada de que uma página já versada está sendo novamente escrita com minudências inexatas, a existência parece como a verdadeira realidade vista à distância, uma lembrança pesada que abafa os pensamentos de qualquer origem.
A escuridão se foi. Tudo volta a ser como deveria ser.
Explicação em três palavras: Blog, silêncio e A.
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Camila Hidaka
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15:58
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
"INFÔMIA"
Outro alvorecer velho dissimula o remate vitorioso do suplício notívago, instaura a euforia instantânea e ilusória. Mais um alvorecer incolor que me devolve à certeza pesarosa e taciturna: veredas torvas e esperança morta.
A perspectiva inexistente sufoca; os projetos ansiados enfraquecem, sem importância. Como sussuros de lamentos melancólicos que ninguém mais ouve, a angústia brama sobre toda a melodia alentada; desfigura as fantasias encorajadoras, arruína a sanidade incerta e resta aqui a cólera oprimida, o universo asqueroso, a dor insuportável.
Como se uma exorbitante insipidez fria agora me embebedasse, recorro ao costumeiro valhacouto maníaco. Fecho a boca, fujo da mortificação com o tormento. Ando, escrevo, choro, ocupo-me... e a realidade sincera logo infiltra-se. O esmorecimento presumível redobra-se: os prazeres se tornam auto-proibições, as necessidades simples parecem ser de natureza peçonhenta, os sorrisos perdem-se na morbidez humana.
Simplifico-me. Sou tudo, e quero ser nada. Sou nada, mas sinto.
Âmago irascível, protesta por ainda xurdir; humilha-se por tal impulso.
Tento, mas não há resolução aceitável. O veneno da existência ordinária apenas vem, e fica. Destrói o impulso de gritar. Mata-me.
Quem sabe mais uma sanha silenciosa, e tudo deixe de existir. Exceto...
" Deus sabe quantas são as ocasiões em que me deito na cama com o desejo, e às vezes a esperança, de não tornar a acordar. E de manhã abro os olhos, revejo o sol e me sinto miserável! Oh, não sou eu caprichoso a ponto de acusar o tempo, ou a um terceiro, talvez, para que o insuportável fardo das mágoas não pese inteiro sobre mim! Desgraçado que sou! Sinto, e bem fundo, que toda a culpa é minha... (...) este coração está morto, já não brota dele nenhum encanto, os meus olhos estão secos e os meus sentidos, que já não são mais aliviados por lágrimas refrescantes, também estão secos..."
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Camila Hidaka
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04:22
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
"GROWING UP IS NO FUN"
O primeiro de todos sempre é o pior dia de cada serzinho medíocre. Sem tal percepção, provavelmente... mas incontestavelmente é o momento besta em que surge mais um pedantezinho nauseabundo, perfeito para contaminar mais ainda o abismo pútrido da humanidade.
A vida ilusória nos recebe, escanicadora; o fedor hipócrita nos envolve; a certeza solitária, cercada de xingaravizes nos toca gentilmente; a natureza repugnante se torna perceptível: estamos imediatamente cercados por um muro sujo, regado por comovimentos fingidos, palavras multifacetadas, ternura egoísta, esperança morta e golpes amigos. Então choramos.
Há um propósito ou ao menos alguma lógica em celebrar este instante, décadas depois (pois é... no plural!)?
Que fomos capazes de suportar tanto tempo na lama é a única motivação que me parece razoável; com esta idéia, até dá para entender os tais "parabéns"... Ou deveria ser "meus pêsames", talvez. Talvez, talvez... talvez fizesse diferença se quem disssesse o fizesse puramente, significativamente.
De automatismo já basta o impulso estúpido de esperar mais um outro tipo dessas datas que não fazem universo nenhum parar.
Quando seu conto de fadas é destruído, cada segundo até esta é eterno, insuportável e insignificante.
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Camila Hidaka
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19:16
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Suponhamos que hoje eu tivesse capacidade de escrever algo que não seja um lamento.
Que acordasse sem notar o frio real nem o figurado depois de um sono agradável. Sem insônias. E entendesse que "bom dia" não é apenas uma ilusão criada pela cordialidade.
E que eu conseguisse me alimentar espontaneamente. Sem sentir dor alguma.
Suponhamos que hoje a repugnância não me domine. Que a natureza pútrida seja como uma baratinha bem feia, que some com uma pisada gostosa. E que, nem por um momento delirante, deseje a morte sanguinolenta de cada criaturinha desprezível.
Suponhamos que eu seja tolerante. E não ligue para falhas humanas, como o falso ser. Que não soubesse que todas as pessoas são um grande cocô com milho. E que não imagine a satisfação de fatiar o cérebro inútil e comer com cebolas ao som do choro escandaloso do amor após meu triunfo. Suponhamos que eu não seja ódio e asco.
Então... seria eu mais um verme mentiroso e cercado de discursos floridos. Como cada um de vocês, amiguinhos.
Ui, ui. Beijinho.
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Camila Hidaka
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00:08
quarta-feira, 27 de junho de 2007
POST SIMPLES.
Nunca tive vontade de chorar por emoção ou felicidade boba - ou nunca tive a capacidade de senti-las por causa da muralha odiosa que construí.
Mas ali, na escada que não terminei de subir... dentro daquele abraço apertado em que já não sabia se era o meu coração que batia desesperadamente ou o teu, impaciente. - ou os dois, como se fossem apenas um.
... fui uma lágrima carregada. Criada por aquilo que jamais imaginei existir.
Te amo, te amo, te amo. Te amo.
Este é o dia mais bonito que vivi.
( Pode soar simples, brega, emo ou qualquer outra coisa... Mas é a parte melhor de toda a minha vidinha medíocre. De longe.)
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Camila Hidaka
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23:57
quinta-feira, 21 de junho de 2007
INSÔNIA
Outro crepúsculo velho contamina a doçura enganosa e passageira do sol, impregna-se na distração quase feliz. Mais um crepúsculo doentio que devolve-me à certeza lúgubre e abandonada: nódoas torvas e flores mortas.
O silêncio musicado ensurdece; os sons noturnos ecoam distantes, sem prestígio. Como um pedacinho de lástima nevoenta que ninguém mais percebe, a tristeza paira sobre todo o consolo sonhador; domina as memórias harmônicas, anula a sensatez medíocre e deixa aqui a solidão acompanhada, o universo vazio, a dor insensível.
Como se uma desmedida escuridão vazia agora me abraçasse, recorro ao habitual refúgio pusilânime. Fecho os olhos, fujo de mim em mim. Canto, grito, planejo, distraio-me... e a noite logo infiltra-se. A angústia impensada redobra-se: os prazeres se tornam inimagináveis, as alegrias simples parecem ser de outra natureza, os sorrisos revelam-se escárnios mórbidos.
Reduzo-me. Não sou nada, nunca poderia ser.
Âmago irrelevante, assusta-se por ainda sentir; pranteia por tal humilhação.
Tento, mas não há justificação aceitável. O veneno da sombra apenas vem, e fica. Destrói o impulso de xurdir. Mata-me.
Quem sabe mais uma cabeçada no travesseiro, e tudo deixe de existir.
"...E o meu sentimento é um pensamento vazio.
(...)sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê..."
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Camila Hidaka
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05:34